Criatividade se aprende na escola?

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

Gabriel Mario Rodrigues 1Gabriel Mario Rodrigues Presidente da ABMES e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular ***
O ambiente competitivo atual, regido pela tecnologia, pela globalização, pela competição acirrada e extrema ênfase na relação custo-benefício, qualidade e satisfação do cliente, exige um foco muito maior na criatividade e na inovação como competência estratégica das organizações. Competência estratégica essa que, se não for rapidamente priorizada e incrementada, tenderá a ficar obsoleta tal é a rapidez das mudanças e da implementação de novos serviços e produtos. (Portaleducação.com.br)
Meu amigo Antonio Carbonari sempre diz que além de ser criativa e inovadora a pessoa tem de ser empreendedora. Não adianta ter ideias e simplesmente colocá-las no papel. As prateleiras e gavetas das universidades estão repletas de projetos e de sonhos desfeitos. É preciso torná-los factíveis e executá-los. Todos nós sabemos, e o SEBRAE confirma pelas suas pesquisas, que mais de 60% dos pequenos empreendimentos não conseguem se viabilizar depois de 10 meses de duração. Empreender por empreender não significa nada. É preciso ter visão de negócios, ter sensibilidade para o mercado. Estar orientado para uma necessidade do cliente, e estar focado nos resultados. Não se pode ser imediatista, pois tudo leva sempre bom tempo para acontecer. É preciso ainda ser perseverante e obstinado pelo trabalho. E se os atributos aqui elencados não estiverem presentes, além de alguns recursos para começar, o projeto não decola. Mas uma certeza tenho: antes de acontecer algo, o fato gerador é sempre uma ideia e daí a importância da criatividade, pois sem ela nada acontece. Aliás, o que distingue o ser humano no reino animal é que ele é o único que possui criatividade e a percepção da morte. O processo civilizatório sempre ocorreu com mentes criativas propondo soluções para os desafios que a natureza impõe. O fogo surgiu com a fricção de duas pedras; a panela de argila queimada, como recipiente de cozinhar os alimentos; a roda para facilitar o transporte; a escrita para memorizar acontecimentos e a internet para unir as pessoas do planeta... Criar é o lampejo de uma solução e inovar é executar a ideia. São irmãos gêmeos. Não vou me ater aos passos da viabilização da ideia, que é o propósito do empreendedor, mas sim na questão da criatividade. A criança é por natureza criativa. Vive perguntando, procurando respostas e criando brinquedos que satisfaçam sua imaginação. Mas, basta entrar no sistema escolar que tudo fica restrito e engessado aos sábios de plantão que em seus gabinetes determinam o que deve ser ensinado e explicitado nas “sábias” diretrizes curriculares. O comportamento criativo não é necessariamente inato, embora exista em potencial em cada indivíduo, mas certamente ele pode ser desenvolvido, aperfeiçoado, encorajado e incentivado. Esta posição encontra suporte em recentes pesquisas que revelam a tendência para aceitar a criatividade mais como função de aprendizagem do que da hereditariedade. Assim, considerando o processo educacional como um dos mais diretamente responsáveis e determinantes ao desenvolvimento das pessoas e das empresas, seria inadmissível que a escola se omitisse do campo da criatividade. E claro, isso serve para os dois polos: docentes e alunos. Há de se considerar que através da criatividade o indivíduo organiza uma síntese de ideias que é original para ele; que o valor da coisa criada reside mais no significado que tal atividade representa para a própria pessoa do que na opinião que outros emitam a respeito. Estimular a criatividade traz o novo para os saberes, pois criativo é não somente o original, mas inclui o imprevisível, o surpreendente, o invulgar, o não racional, o não lógico ou o não razoável. Na formação de um aluno, é preciso que sejam observados alguns pontos importantes: - Se a criatividade é favorecida quando se respeita o estudante como um ser de grande valor e ele é incentivado a crer em si; - Se o auxiliamos na busca de identidade pessoal, nas suas opções; - Se é criado um clima de liberdade para o indivíduo ser, perguntar, experimentar, propor ideias e posicionar-se; - Se ele é incentivado na formulação de hipóteses extravagantes, ideias raras e até mesmo ridículas que podem conduzi-lo para um novo mundo. É fundamental também que a escola esteja aparelhada ideológica e materialmente para proporcionar técnicas, meios e ambientes de liberdade onde os alunos possam desenvolver sua capacidade expressiva, construtiva, criadora e inventiva que conduz ao processo de aprendizagem. Contudo, tais condições são menos propensas a incentivar a criatividade dos estudantes do que quando um professor atua como incentivador, facilitador de recursos, provedor, guia ou treinador, e onde os alunos recebem o espaço e a liberdade para tomar decisões sobre o seu próprio processo de aprendizagem e os resultados. No trabalho Teaching for Creativity (Jackson, 2004)*, está relacionada uma série de conselhos para incentivar os alunos a serem criativos, em uma variedade de contextos disciplinares, revelando as ações que os professores de ensino superior devem fazer para promover a criatividade. A relação é a seguinte:
  • dar aos alunos a permissão para serem criativos;
  • incentivá-los e valorizar seus esforços para serem criativos;
  • dar tempo para os alunos serem criativos;
  • proporcionar espaços seguros onde possam partilhar novas experiências;
  • dar aos alunos a confiança para assumir riscos;
  • desenvolver a autoconfiança dos alunos para trabalhar em situações imprevisíveis;
  • promover o desenvolvimento da autoconsciência e aprendizagem reflexiva;
  • proporcionar situações de aprendizagem onde não há respostas certas;
  • proporcionar situações de aprendizagem do mundo real;
  • proporcionar atividades que são significativas para os participantes;
  • proporcionar situações de aprendizagem que são ao mesmo tempo divertidas e desafiadoras;
  • demonstrar a sua própria criatividade: fornecer modelos e preparar os alunos para assumir riscos;
  • motiva-los para revelar algo de si mesmos no processo de ensino;
  • atuar como guias e facilitadores;
  • adotar uma abordagem de questionamento à aprendizagem;
  • criar oportunidades para abordagens baseadas na aprendizagem de como enfrentar desafios e problemas;
  • oferecer oportunidades para trabalho colaborativo e discussão em grupo;
  • incentiva-los em questões sensíveis ao equilíbrio entre desafio e solução e liberdade e controle;
  • sensibilizar os alunos como grupo e como indivíduos e adaptar o seu ensino como novas possibilidades que surgem.
Para resumir, o ensino para a criatividade requer uma postura pedagógica que é o do facilitador, permitindo processos ágeis, abertos às possibilidades e a colaborações, e que valorize tanto os processos quanto os resultados. Apesar, ou talvez por causa, dessas restrições, os professores que se preocupam com a criatividade são capazes de superar tais barreiras para criar, por meio de sua pedagogia, espaços curriculares e oportunidades de aprendizagem que estimulem e recompensem os alunos para a sua criatividade. No livro A Whole New Mind: How to Thrive in the New Conceptual Age, Daniel Pink apresenta as quatro eras das sociedades dos últimos 150 anos - agrícola, industrial, da informação e a do conhecimento, iniciada no século XX e estendendo-se até agora. Atualmente, começa a emergir uma outra era, a que Pink chamou "era conceitual", na qual se valorizam as pessoas que conseguem ser mais criativas e com maior inteligência emocional. A humanidade está repleta de problemas e é justamente na percepção desta realidade a grande oportunidade dos criativos de encontrarem soluções para os desafios do mundo. Que haja criatividade para fazer do planeta um lugar mais fácil de se conviver. * Leia aqui textos complementares.

26/02/2014

Maria Carmen Tavares Christóvão

Gestão da Criatividade e da Inovação em ambientes educacionais Todo profissional, assim como gestores e docentes educacionais , possuem a tendência em reproduzir a sua própria formação. Esta é uma dificuldade elementar na tentativa de inovar nos ambientes acadêmicos, pois se trata de um aspecto cultural. Tenho ministrado cursos que buscam desenvolver a liberdade, intensidade e melhor expressão do Indivíduo Criativo. O Indivíduo Criativo, ao ter maior consciência de si e de suas capacidades de percepção e expressão, vê-se como mais potencialmente Inovador. Objetivamos igualmente potencializar as capacidades criativas e inovadoras advindas da convivência de Indivíduos Criativos em grupos. No Indivíduo Criativo, o ideal é que a fronteira entre criação pura e criação aplicada não exista: exista a liberdade e a satisfação de transitar expressivamente entre elas. A Criação Pura, campo das artes e do pensamento filosófico livre, expande linguagens e areja fronteiras e percepções. O Indivíduo Criativo, mesmo os que não tenham dominado as formas da expressão artística, saberão ver, também na arte e no pensamento livre, combustíveis e insights importantes para suas realizações nos campos do fazer mais pragmático e utilitário. Prazer de criar, Liberdade de Criar, Coragem de Errar: prazeres e motivações do Criativo são racionais e emocionais. Abordamos a Criatividade Pessoal, Criatividade nos Grupos Criativos, Desenvolvimento da Criatividade em indivíduos e grupos, Desenvolvimento da postura e visão da Inovação na instituição. A Criatividade perpassa a compreensão apenas técnica. Ela se explica pela multiplicidade, pelo paradigma holístico e da complexidade. Ela transita pela emotividade, ela comanda o corpo livre, o gesto livre do cidadão livre, do ente familiar livre, do individuo livre em sociedade. Assim os cursos ministrados objetivam entender e buscar a liberdade do pensar, do se inquietar, do questionar e – sobretudo – a liberdade da proposição sem medos de censuras e insucessos intermediários ou persistentes. A Criatividade apenas aplicada à solução de problemas mercadológicos é uma criatividade usada a menor. Um técnico, que pensa usar a criatividade para resolver problemas estanques não entente o território amplo de onde e do como o Criativo busca suas respostas. O esplendor da Criatividade num Criativo provém de sua ampla, livre, curiosa, harmônica e ecossistemicamente benéfica visão de mundo. Assim, a Criatividade (e por extensão a Inovação, sua parceira mais constante) não deverá ser refém de tecnocratas de visão restrita a um planeta e uma sociedade que se explique unicamente pelos resultados dos negócios. As soluções que, desconectadas de uma visão harmônica de sociedade, recursos naturais e ecossistemas, desconectadas do bem comum, desconectadas de um compromisso com um futuro global sustentável , apontem miseravelmente para apenas aspectos de aumento de lucros, diminuição de tempos de produção, e qualquer modalidade de manipulação de consciências, não deverão ser chamadas de criativas ou inovadoras e sim pelo correto nome de vilanias sociais. Assim, qualquer solução que, mesmo contendo em seu bojo, expectativas superlativas de resultados econômicos, se descomprometidas com os valores sociais a ambientais, não deverão ser formuladas, nem por extensão, implementadas. Cabe sempre e cada vez mais ao Criativo Inovador e aos Líderes, encontrar soluções integradas, onde lucratividade e produtividade convivam com espetaculares aspectos ligados a melhoria e prosperidade da sociedade e de um futuro de sustentabilidade e equilíbrio ambiental. Assim, a Criatividade não é mais exatamente uma técnica a ser aprendida. Ela não funciona como uma ferramenta pessoal com uma chave de liga/desliga. O Criativo o é em todos os momentos de sua vida – pessoal e profissional. Carrega o olhar investigativo, a inquietação e o questionamento, o pensar propositivo, o agir solucionador e realizador . Essa maneira de viver a vida – pessoal e profissional – é que pode ser estudada, compartilhadas e tentativamente ser apreendida. Os campos da Criatividade e da Inovação, tanto em seus territórios de expressão mais livre quanto nos de expressão mais utilitária, se interpenetram e se auxiliam em energia, na visão constitutiva da educação. Como estamos e estaremos cada vez mais no tempo das soluções integradas e holísticas, a compreensão dos constituintes racionais, emocionais, interiores e exteriores do indivíduo Criativo e Inovador, perpassa e harmoniza esses diversos campos, para benefício do enriquecimento do processo que leva da problematização a solução criativa e inovadora. Os alunos, serão então parte orgânica e ativa de todas as vivências didático pedagógicas propostas. E estas serão - por imperativo intrínseco e ligação natural aos campos dos estudos- inovadoras, desafiadoras, instigantes e estimulantes da expressividade em todas as suas formas. Carmen Christo Mestre em Gestão da Inovação Áreas de atuação e pesquisa associadas ao campo temático da inovação, direcionada ao segmento de serviços. Instituições baseadas em conhecimento, sistemas empresariais e institucionais de inovação e aprendizado, inovação em serviços e produtos educacionais.

Rumo a Paris, com o futuro da educação superior na bagagem

Janguiê Diniz

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Júlio Cesar de Castro Ferreira

Psicoterapeuta Clínico, especializado em Neuropsicologia, TCC e Psicanálise. Analista Sênior de Treinamento e Desenvolvimento, especializado em Inteligência Emocional e Soft Skills.

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Ronaldo Mota

Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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