Enade: o uso do cachimbo faz a boca torta

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

Gabriel Mario Rodrigues Presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular ***
Para se aprender, não basta só ouvir por fora: é necessário aprender por dentro: se a luz de dentro é muita, aprende-se muito; se pouca, pouco; se nenhuma, nada (...). (Pe. António Vieira, Sermão do Espírito Santo.)
Capital paulista, meados da década de 1978, mais precisamente em torno da Rua Xavier de Toledo, lojas Mappin e Barão de Itapetininga por onde passava diariamente mais de um milhão de pessoas. Arriscar atravessar a rua com farol vermelho era atropelamento ou trombada na certa. Como administrar veículos e pessoas da maneira mais amigável possível foi assunto que minha memória registrou sobre o guarda de trânsito Luizinho. Policial de perfil comunicativo, tornou-se personagem famoso, pois em vez de dar broncas e multas, oferecia ao pedestre desavisado e ao motorista afobado uma palavra amiga ou um cartão com uma mensagem, alertando-os sobre a temeridade de alguma infração praticada.  O guarda Luizinho achava que a multa não era a solução. Acreditava mais na mensagem educativa do que na punição para conscientizar as pessoas da importância de estarem atentas aos sinais e às leis de trânsito. Relato o fato com o propósito de associá-lo ao sistema avaliativo do ensino superior implementado pelo Ministério da Educação (MEC) que, em vez de ser um instrumento de aprimoramento do desempenho das instituições de ensino superior (IES) e de aperfeiçoamento dos cursos que oferecem, tornou-se uma forma de punição. As IES avaliadas com conceitos 1 e 2 são severamente penalizadas, fato que vai “de encontro” aos princípios do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), estabelecido pela Lei nº 10.861/2004, no art. 1º § 1º :
O Sinaes tem por finalidades a melhoria da qualidade da educação superior (...) a promoção do aprofundamento dos compromissos e responsabilidades sociais das instituições de educação superior, por meio da valorização de sua missão pública, da promoção dos valores democráticos, do respeito à diferença e à diversidade, da afirmação da autonomia e da identidade institucional.
O Sinaes foi sábio ao determinar que a avaliação considere as diferentes tipologias organizacionais das instituições, as diversidades regionais e, acima de tudo, ser lastreada nos "múltiplos olhares" dos processos e na avaliação institucional e de cursos. Determinou ainda que a avaliação das instituições está centrada em três pilares básicos: autoavaliação; avaliação externa e Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Lembro-me como se fosse hoje quando o ministro Fernando Haddad convocou o Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular para informar que, não tendo o MEC estrutura para avaliar a todos, usaria o “bom senso” das leis estatísticas. Isto quer dizer fundamentalmente que, ao serem avaliados, os grupos homogêneos se comportam sempre da mesma forma: nos extremos (mais ou menos 20%) ficam os com notas 4 e 5  e os que obtiveram 1 e 2. No centro ficam os medianos (cerca de 60%) com nota 3.  E, para suportar esta tese, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC) instituiu, com “imensa criatividade”, fundamentado no Enade, o Conceito Preliminar de Curso (CPC) e o Índice geral de Cursos (IGC). A explicação do ministro Haddad foi bem convincente. Somente as escolas que obtivessem 1 e 2 precisariam ser visitadas para a avaliação definitiva. Portanto, os índices preliminares foram criados apenas para atender a esta finalidade. Mas como o uso do cachimbo faz a boca torta, os índices preliminares, CPC e IGC, se tornaram definitivos e, a partir daí, todos os atos regulatórios do MEC passaram a sofre deste mal de raiz. Sem falar do absurdo de transformar o Enade – um exame para avaliar o desempenho do estudante para ver o que aprendeu em seu curso – num índice preliminar de avaliação de curso. A avaliação deve ser uma estratégia pedagógica para que o governo, a sociedade, as instituições e os alunos conheçam tanto o desenvolvimento dos procedimentos educacionais no sistema universitário brasileiro quanto o tipo de profissional o país está formando para participar do seu crescimento. Este é o grande desafio do Brasil. Diferentemente do guarda Luizinho – que mostrou que é mais válido conscientizar as pessoas do que puni-las – o MEC estigmatiza as instituições, tira-lhes o direito de crescer, tendo por base um modelo de avaliação sem consistência técnica e legal. As consequências da implementação do modelo de avaliação são perversas: em vez de ensinar os alunos a como atuar em um mundo em transformação, as instituições apequenam a sua missão ao cederem importantes espaços para treinar os estudantes sobre a melhor forma de responder às questões do Enade.

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Janguiê Diniz

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Psicoterapeuta Clínico, especializado em Neuropsicologia, TCC e Psicanálise. Analista Sênior de Treinamento e Desenvolvimento, especializado em Inteligência Emocional e Soft Skills.

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Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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