A resolução de conflitos e o "bastão que fala"

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular ***
Os conflitos se formam pela incapacidade de ouvir e entender as livres expressões de pensamentos que cada ser humano carrega dentro de si. A mediação e a solução deveriam ser um método simples e, o diálogo, o meio da intermediação. Ouve-se e se fala respeitando e reconhecendo cada indivíduo e suas ideias, tornando cada momento crítico em estímulo individual ou coletivo e respeitando cada um desses direitos. (Bastão-Que-Fala/Ponto de vista/Opções. Google.)
Li e gostei do artigo de Jacir Venturi, presidente do Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe/PR), publicado na revista Linha Direta[1].  Vida inteira dedicada ao ensino, diretor de colégio e prestigiado autor de livros, escreveu sobre um problema atual cada vez mais alarmante nas instituições de ensino: os conflitos com estudantes, professores, pais e administradores, tanto nas escolas públicas como nas particulares de todos os níveis, o que compromete a administração escolar, de forma expressiva, roubando o precioso tempo dos gestores.  Crianças, adolescentes e adultos precisam ser orientados a resolver suas desavenças harmoniosamente. Para Venturi, "difundir a cultura de que a diversidade é uma riqueza torna o ambiente escolar mais amistoso e menos conflituoso". Ele mostra, por exemplo, como combater o bullying e destaca a importância do comprometimento da escola em relação a esse problema, por meio da implantação de uma cultura de respeito, tolerância e aceitação das diferenças entre indivíduos. Além disso, dá inúmeros conselhos: ser bom ouvinte, principalmente nos "arranca-rabos" entre alunos; manter hierarquia e disciplina; zelar pela boa administração; punir quando necessário e ter regras bem claras para serem cumpridas. Mas, acima de tudo, passar aos estudantes, desde pequenos, os valores inter e intrapessoais, como ética, respeito ao próximo, responsabilidade socioambiental e autonomia para que sejam adultos compreensivos, para que saibam trabalhar em grupo e para que sejam abertos ao diálogo e às transformações sociais e tecnológicas. Ao retratar uma das questões mais endêmicas que acontecem nas escolas – o difícil relacionamento entre indivíduos – Venturi me fez lembrar uma passagem que vivi como diretor da Faculdade Anhembi Morumbi no início dos anos de 1990. Por estar no mesmo contexto do tema, e por ter tido solução inesperada, considerei interessante revolver o passado e contar o sucedido. Tudo começou com um pequeno desentendimento entre uma aluna e uma auxiliar da biblioteca para em seguida se transformar numa briga generalizada e sem controle. Um verdadeiro “bafafá” de rua. O regulamento da biblioteca estabelecia que ninguém poderia comer ou beber dentro do recinto. Uma aluna que não conhecia as regras saboreava tranquilamente o seu sanduíche com um livro aberto sobre a mesa. Advertida da proibição por uma funcionária ela não acatou a reprimenda e a enfrentou. As duas se desentenderam, bateram boca, se engalfinharam e depois de muita gritaria, chegaram  às vias de fato, com agressão mútua e troca de tapas, socos e puxões de cabelos. Separada a briga, a muito custo, elas foram convidadas a se retirar seguindo cada uma o rumo de suas casas. O fato foi levado à coordenação do curso frequentado pela aluna, que, conforme o regimento, abriu sindicância e nomeou dois professores para entrevistar as moças, ouvir as testemunhas, apurar os fatos e, em 48 horas, definir as penalidades e encaminhar o resultado ao diretor da faculdade. Na noite seguinte, foi uma balbúrdia total com a participação de familiares, funcionários e alunos envolvidos na questão. Cada qual defendia suas posições e os docentes, por sua vez, faziam de tudo para contornar o caos formado. E a solução só veio depois de duas horas de desentendimentos, quando um dos mestres de descendência cabocla – professor Pedro – adotou um método que seus pais usavam para resolver pendências. Segundo me contaram, ele juntou todo o grupo, estabeleceu regras para discussão, deixou cada uma expor os motivos da briga, ordenou que os familiares se aquietassem para ouvir as justificativas e ponderou que o grupo deveria dar solução para o conflito. A seguir, o professor pegou uma estaca de madeira e ordenou que cada pessoa que a segurasse deveria ser ouvida pelas demais,em silêncio. Oresultado veio pelo próprio grupo: as meninas deveriam fazer as pazes e pedir desculpas fraternalmente. Como penalidade, cada uma ficou responsável por prestar serviços nos fins de semana à associação de bairro. Professor Pedro, o solucionador do embate, nem chegou ao fim do semestre, porque foi trabalhar no interior do país. Essa história ficou sempre retida na minha lembrança. No entanto, não tive a oportunidade de falar com ele, de conhecer melhor sua estratégia para acalmar o bando de ensandecidos e resolver o conflito. A vida rolou, o tempo passou e eis que tempo atrás lendo o portal Porvir (porvir.org) fiquei sabendo que escolas públicas americanas usam métodos indígenas para resolver pendengas entre menores agressivos. Por pura curiosidade, fui ao Google ver se havia alguma informação a respeito e deparo-me com algo para mim inusitado – o mesmo fundamento usado pelo professor Pedro para conciliar desentendimentos. É o significado do "Bastão que fala" na cultura dos índios[2]. Os povos indígenas de todos os cantos do planeta, ainda são vistos como parte de um passado não muito distante que, pela sua cultura de paz, deixaram exemplos valiosos e experiências marcantes, respeitando as diferenças e as idiossincrasias das diversas personalidades[3]. Nesse sentido, o “Bastão que fala" é um instrumento pacificador utilizado pelos nativos americanos sempre que um Conselho se reúne para apresentar “Seu Sagrado Ponto de Vista”. A palavra sagrada é a âncora que suporta o respeito mútuo entre os participantes do Conselho. Cada membro só tem o direito de usar a palavra quando o "Bastão que Fala" for colocado em suas mãos. Enquanto isso, o restante do Conselho fica ouvindo com extrema atenção cada ponto de vista e o bastão vai passando pelas mãos de todos os membros. Até mesmo as crianças já compreendem, desde os três anos de idade, o que é ouvir uns aos outros e aprendem a se respeitar mutuamente. Os conflitos, as lutas, os desentendimentos estão por toda parte, em nossos lares, junto aos familiares, nas escolas, nas empresas, na política, na religião, no meio de transporte e nas filas dos bancos. As desavenças estão inseridas no dia a dia das nossas vidas. Temos pontos de vista político, ideológico, econômico ou religioso distintos, no entanto devemos transformar cada desentendimento ou briga em estímulo para o desenvolvimento da criatividade e das grandes transformações. O diálogo deve ser o intérprete das soluções. Onde se ouve e se fala respeitando e reconhecendo cada indivíduo, semeia-se o campo do bom senso e do entendimento.  

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Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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