Ferramentas digitais nas instituições educacionais: os riscos da "gratuidade"

Ronaldo Mota

Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

Nos últimos anos, grandes empresas de tecnologia atuando na área educacional se tornaram presença quase obrigatória nas instituições de ensino, tanto privadas como públicas. Plataformas de ensino e gestão chegaram com uma promessa sedutora: ferramentas robustas e, na versão de entrada, gratuitas. O problema é que essa gratuidade raramente é permanente e o momento em que ela muda de figura costuma pegar os gestores de surpresa.

Existe um modelo de negócios conhecido por trás da "gratuidade". A lógica é conhecida no mercado de tecnologia como “freemium”, no caso também por tempo de uso: oferecer inicialmente uma versão básica sem custo para conquistar usuários, criar dependência e, só depois, monetizar. Migrar toda a comunicação, o material didático e a gestão administrativa de uma instituição para uma plataforma é um processo caro e trabalhoso, envolvendo treinamento, adaptação de rotinas e anos de dados acumulados. Uma vez feita a transição, sair da plataforma deixa de ser uma opção simples.

Um exemplo recente ilustra o movimento. Determinada empresa, que por anos ofereceu uma licença de equipe gratuita para cada quatro licenças de estudante pagas em seu pacote educacional, anunciou mudanças no licenciamento a partir de 2025: o benefício de licenças gratuitas para a equipe foi extinto, uma das edições pagas foi descontinuada e o preço por usuário da edição mais completa subiu. Instituições que já dependiam da plataforma passaram a enfrentar reajustes e novas exigências contratuais sem grande margem de negociação porque trocar de fornecedor, àquela altura, já não era mais realista.

Há ainda um risco menos discutido: escolas, sobretudo as que adotam versões beta ou “early access”, funcionarem como campo de testes para essas empresas. Recursos de inteligência artificial e novas interfaces costumam ser testados primeiro em ambientes educacionais, que fornecem grande volume de uso real a custo baixo para o fornecedor. A instituição contribui para o aprimoramento do produto sem necessariamente ser compensada, e às vezes sem clareza sobre como os dados gerados são usados.

Um grave erro possível para os dirigentes é olhar só para o balanço do ano. O ponto central de alerta é: decisões sobre ferramentas digitais costumam ser tomadas com foco no balanço financeiro do ano corrente, sem projeção de custos de médio e longo prazo. Um gestor pode fechar o ano com números favoráveis por ter adotado uma ferramenta gratuita ou de baixo custo, sem calcular o que acontece quando o contrato for renovado em condições bem diferentes, em geral sem um plano de contingência caso os valores se tornem inviáveis. Isso pode deixar um legado perigoso: uma escola presa a uma plataforma da qual não consegue mais se desvincular, obrigada a absorver reajustes sucessivos ou a arcar com o custo de uma migração emergencial.

Há um caminho mais seguro? A resposta está longe de ser simples, mas dirigentes informados é essencial. Uma recomendação é tratar a adoção de ferramentas digitais como investimento estratégico de longo prazo, não como decisão operacional pontual. Isso significa negociar contratos plurianuais, com valores e reajustes previamente definidos; exigir cláusulas de portabilidade de dados, para exportar o histórico caso a instituição troque de fornecedor; simular custos para os próximos cinco a dez anos, não apenas o ano corrente; e envolver as áreas financeira e jurídica na negociação, não só a equipe de tecnologia.

É certo dizer que a tecnologia, bem escolhida e bem aplicada, pode trazer ganhos reais de eficiência para a gestão escolar e para o ensino. Mas o preço da comodidade de hoje pode ser cobrado, com juros, amanhã, sendo a hora de negociar as regras do jogo antes de a escola se tornar refém dele, não depois. De resto, bom-senso e transparência são bons sempre.

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Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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