O domínio do universo digital é exigência do mundo pós-pandemia

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

Fazia mais de um século que uma pandemia não afetava de forma tão global a humanidade. Com o mundo cada vez mais interligado, não demorou muito para o coronavírus se espalhar e, em 6 meses, transformar a vida de todos (Midialab – Estadão)

Resetar o Ensino superior (1) foi sem dúvida alguma a reflexão que o 22º Fenesp nos obriga fazer em relação a tudo que foi exposto pelos palestrantes e comentado pelos congressistas nas mensagens trocadas no transcorrer do evento. Não só o que pode ser feito para enfrentarmos os desafios impostos à educação pelo coronavírus, como também a atitude que devemos ter, com respeito a antecipação de uma realidade tecnológica para a qual nem todos estavam preparados.

 

Por outro lado, a economia dos países foi travada, os negócios foram reduzidos fortemente e os empregos sensivelmente diminuídos, principalmente nas áreas que envolvem relações interpessoais. Só para se ter ideia, no Brasil, mais de 40 milhões de pessoas não tem trabalho, entre as desempregadas e a que estão fora do mercado e querem trabalhar. Há 522 mil empresas de pequeno porte e do setor de serviços que fecharam por dificuldades de encontrar crédito.

Na maior parte dos países, as desigualdades de todos os tipos ficaram expostas, nos mostrando como vivem, como moram e como é tratada parte considerável da população, nos cuidados da saúde, no saneamento e no atendimento dos demais serviços públicos. Mas o que vamos comentar está baseado em alguns dos chats trocados entre os participantes que passaram pela tela do meu computador e que pelo conteúdo nos instigaram a escrever este artigo.

Pensando bem, diria que concordo praticamente com tudo que foi exposto e com as previsões de como será a escola passada a pandemia. Creio sim que não será mais igual as de hoje, mas as mudanças não acontecerão da noite para o dia, pois tudo leva tempo para se ajustar. Que a escola em todos os graus e segmentos não será a mesma não temos dúvida. É importante pensar nas tecnologias e suas plataformas, que facilitam e oferecem caminhos diferenciados para a aprendizagem e há alguns aspectos que todos concordam:

  • A maioria dos alunos vai preferir educação não presencial. Eles vão querer mais autonomia e as instituições, para se manterem no mercado, terão que procurar meios e instrumentos para facilitar o atendimento dos alunos, caso contrário perderão espaço;
  • Mesmo os cursos considerados sagrados na presencialidade, agora serão atingidos significativamente e com a proliferação da modalidade educação hibrida que junta – presencialidade com educação on-line. Claro que com as devidas adequações, como já acontece no Brasil com algumas experiências;
  • Haverá mais questionamentos quanto ao processo regulatório e certamente o Ministério da Educação perderá espaço e importância formal no universo do conhecimento;
  • Com certeza mudarão os sistemas de certificações, isto é, não haverá mais tantos carimbos para validar o conhecimento, as competências e as habilidades. Cada escola será mais um canal para isso, mas ao lado teremos dezenas de outras opções, talvez até melhores que farão com mais propriedade, mais agilidade e competência o mesmo trabalho;
  • O professor deverá perceber que, ao mesmo tempo em que no ensino presencial seu papel poderá ser menos valorizado, por outro lado, a sua importância aumenta quanto maior for seu domínio das tecnologias de informação e comunicação. Antes ele tinha o quadro negro para colocar suas palavras, agora ele tem a tela com seus multimeios para exaltar as suas ideias. Aprender vai ser a atividade mais demandada neste mundo, onde o conhecimento é requerido a vida toda. No ensino fundamental e médio é outro mundo, onde ainda há espaço nobre para ele perdurar muito tempo.

Está surgindo com vigor um novo instrumento para a educação que é a projeção de imagens em 3D de forma interativa, o que permitirá reduzir o número de professores e oferecer de forma até mais organizada conteúdos e mesmo experimentos de laboratório que podem ser usados intensamente. E a educação holográfica, imagine o que ela pode fazer no ensino da medicina, das engenharias e outras áreas consideradas sagradas, quando permitirá acessar internamente, por todos os lados pelo 3D? E há centenas de aplicativos que estão surgindo no mercado para aperfeiçoarem a comunicação e o entendimento das aulas.  Imaginem o que vem por aí!

Vai mudar, com certeza, o mercado ocupacional e seremos surpreendidos com as experiências do home office, o que   diversificará ainda mais o ambiente do trabalho, mandando para a lata do esquecimento, muitas ocupações hoje exercidas por pessoas. Com certeza a economia, o empreendedorismo e novas fontes de negócios, deverão encontrar novos mercados de trabalho para as pessoas sobreviverem, o governo deverá pensar fora da caixa para criar projetos que intensifiquem de todas as formas novos usos para a mão de obra, com atenção redobrada, pois os processos produtivos serão cada vez mais automatizados e, onde eram necessários 10 profissionais, hoje, 2 bastam. Será desemprego a vista?

Isso pode acontecer também no ensino superior com a redução drástica de pessoal, para diminuir custos, para manter as IES no mercado e para oferecer com mais agilidade, mais competência e mais assertividade os mesmos serviços que hoje são mais onerosos.

A era digital apenas começou e já causa espanto e admiração ao mesmo tempo, pois ela projeta infinitas possibilidades de transformação, de inovação, pois uma coisa chama a outra. No Brasil, podemos até projetar, mas nosso compasso ainda será lento, apesar de que uma nova geração está surgindo atropelando tudo com suas startups cada dia mais sofisticadas e criativas. Onde vamos parar?

O atual EAD mudará totalmente e já está se transformando. Quem não se atentar para isso perderá espaço, pois surgiram novos instrumentos, novos aplicativos e novas ferramentas mais poderosas, que pessoalmente vejo com inveja de quem é mais jovem, pois o universo que se descortina é fabuloso. Mas vamos com calma, pois as mudanças virão, porém temos que ter no presente, que toda a ação tem junto uma reação e é aí que entram valores, crenças e ideologias que podem ajudar ou, pior ainda, o que é mais provável, atrapalhar.

Apesar da despreocupação dos governos (não é possível que não haja alguém que não tenha lido os relatórios da OCDE) (2) o processo da mudança é irreversível. Na educação haverá sim, e aí concordo uma revolução sem precedentes, mas sinto que no Brasil, no ensino fundamental e médio público, pode atrasar tudo, a não ser que consigamos fazer uma revolução não mais silenciosa, mas ruidosa para mudar de vez o cenário.

Enquanto não resolvermos o problema crônico das desigualdades, tudo o que falamos fica pelo meio, pois grande parte de nossa população não tem internet, não tem acesso a ferramentas que são fundamentais para o processo dar resultados. Então precisamos resolver isso rapidamente. Olhe como estamos agora: muitos estados foram pegos sem nenhuma tecnologia para oferecer educação remota (nome inventado para a transmissão de aulas presenciais pela TV), o que não resolve, pois os professores não estavam preparados e sem saber como fazer.

Quem já tinha expertise em EAD tirou de letra e nisso nosso segmento particular não ficou para trás, ao contrário, mostrou competência como enfrentar o desafio.

Apesar da maior crise mundial de saúde que abala todas as nações, o nosso país, com todos os seus problemas de sustentabilidade, de econômica e políticos e sociais, encontrará no caminho da criatividade, entendimento, solidariedade e colaboração a solução. Vamos torcer, acreditar e fazer a nossa parte para que isto aconteça. “Quando todos sonham juntos fazem tudo acontecer”.

(1) Prática que faz parte do cotidiano da informática, que é a ação de apagar ou desfazer opções configuradas nos computadores

(2) OCDE –  Organização de Cooperação e Desenvolvimento econômico

10/11/2020

Wandy Cavalheiro

Concordo em genero, numero e grau como diz o ditado. O que previsa é voce que é uma voz forte e pode ajudar nisto é gritar muito alto para este governo tomar uma atitude com as camadas mais pobres que precisam de internet. Precisa juntar ABMES, SEMESP todas as entidades e fazer muito barulho na imprensa. Só vejo esta solução, senão daqui a pouco a pandemia passa e o povo brasileiro como sempre esquece dele mesmo e suas carencias. Sensibilizar os empresarios pra valer.

10/11/2020

Bernardo Castello Branco

Parabéns professor, o Sr. é um dos pioneiros do EAD. Precisamos levar educação de qualidade para todos e a forma não presencial é um dos meios. Abraços;

Rumo a Paris, com o futuro da educação superior na bagagem

Janguiê Diniz

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Júlio Cesar de Castro Ferreira

Psicoterapeuta Clínico, especializado em Neuropsicologia, TCC e Psicanálise. Analista Sênior de Treinamento e Desenvolvimento, especializado em Inteligência Emocional e Soft Skills.

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Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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