Anos vinte; como formar gente para trabalhar em ocupações profissionais que ainda não existem

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

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Gabriel Mario Rodrigues Presidente do Conselho de Administração da ABMES ***
As empresas precisam adotar um modelo de atuação exponencial para evitar a falência como a americana Kodak, pioneira na indústria da fotografia. “A ideia é que a empresa tenha sistemas exponenciais ligados a ela que vão inovar e não a nave-mãe.” (Salim Ismail – Revista Exame)
Alguns amigos disseram que não viram “nada mais significativo do que todos já sabem” no livro de Alfons Cornella e Lluis Cubota que venho comentando. O mais importante na visão dos autores é como educar humanos num mundo de máquinas inteligentes e sua justificativa é a de “não haver mais sentido treinar os jovens em tarefas que as máquinas podem fazer”. Este é o grande desafio que poucos perceberam de que a educação precisa preparar-se para enfrentar a realidade do mundo da Inteligência artificial. Salim Ismail, em entrevista à Revista Exame, disse quase o mesmo, ao salientar que os sistemas educacionais formam para as profissões de hoje e o problema é que não sabemos como serão os empregos no futuro e o que vamos ensinar a eles. Esta questão é mundial e não só do Brasil. Relatório da The New Work Order baseado em pesquisa da Fondation for Young Australians (FYA) mostra que mais de 50% dos estudantes estão se formando em carreiras que se tornaram obsoletas pelos avanços tecnológicos e que 60% dos jovens entram no mercado de trabalho, em empresas que serão afetadas pela automação. 65% das crianças de hoje vão trabalhar em carreiras que não existem ainda e Cornella é pragmático ao dizer que vamos precisar conviver colaborativamente com as máquinas, valorizando as nossas competências sócio emocionais que elas nunca possuirão. Cornella e Cubota em 100 itens derrubam alguns mitos, constroem outros tantos, desafiam a “lógica tradicional” da educação, apontam com convicção alternativas evolucionárias para as escolas. Criticam pais e professores, além dos jovens acomodados. Na PARTE II de seu livro, os autores estabelecem três atenções a dedicar: experimentar, colaborar e integrar. “O que é ser humano” é a primeira questão que respondem:  é ter curiosidade, espírito crítico, ser criativo, ter empatia social e capacidade de improvisar. E adiciona, que cada um de nós tem um talento, destacável pela natureza e nisso reside a função principal da educação: descobrir esses talentos e levá-los à máxima potência. Será que os autores têm respostas à questão da mudança no trabalho. E para quem está nascendo agora, como devem ser preparados? Repetir a mesma aula por longos anos como fazem os professores, os robôs bem instruídos por professores serão melhores. Como reinventar o professor? Conforme eles, o mundo avança com enorme rapidez, por inúmeras razões, e a IA-Inteligência Artificial estará em todas as atividades. Assim, por consequência, somos levados a pensar num modelo educacional que considere que teremos pela frente máquinas e que serão, além do mais, inteligentes. Com isso, restará aos humanos constituírem-se em equipes com as máquinas e, se por um lado o trabalho estará automatizado, por outro a máquina aumentará as capacidades humanas. Ao tratar sobre a curiosidade, eles questionam o que faz o ser humano diferente de uma máquina e como pode um humano competir com ela. Sem dúvida, a curiosidade é a mãe da necessidade. Sempre observar e se questionar constantemente é a estratégia. Observando que as IA nos darão muitas respostas, geradas pelas análises de milhões de dados e da aplicação de certa lógica, pois o aprendizado se fundamenta no uso dos algoritmos. Além da   capacidade humana de ser crítica, quando questionamos as coisas e duvidamos das respostas, já que ela é o próprio mecanismo para se fazer perguntas. Eles são incisivos ao “optarem” por educação baseada em projetos (transdisciplinar), dizendo que ela é a saída inovadora e justificam destacando que explorar experiências significa buscar elementos, integrando e desintegrando, ou seja, uma proposta repleta de desafios. E eles se estendem por algumas páginas tratando de projetos tangíveis e educativos, arrolando bons exemplos e cases internacionais e não deixam de enfatizar que tal modalidade de ensino exige ferramentas sem as quais essa tarefa se torna impossível. Se o objetivo é construir uma cadeira, então a madeira, cola, pregos, martelo e uma serra são absolutamente necessárias. Mais à frente, os autores destacam que são numerosíssimos os recursos educativos presentes na Internet e se atém a várias fontes realmente insubstituíveis para o aprendizado, sem deixar de mencionar a importância de aprender a programar e de usar os recursos digitais. Afinal, hoje, aprender programação é essencial para o jovem sobreviver no futuro. Cornella e Cubata não concluiriam o capítulo sem redundar: um passo a mais, indo além da experimentação, existe a necessidade de construir, de fazer o projeto uma realidade material. Por aqui, os TCCs universitários infelizmente vão na contramão, por não atingirem seus objetivos. Na abertura do item Colaborar, suavizam um pouco dizendo que não é frequente se dispor de todo o conhecimento necessário para levar a cabo um projeto, assim um pedido de ajuda é o habitual. E é nisso que reside a colaboração, a empatia, que não permite comparação com as máquinas, dado o sentimento e a capacidade de socialização, o que é uma grande virtude. E, lamentavelmente abrigamos um modelo social e educacional no qual prepondera a competição sobre a colaboração. Para o autor, é difícil convencer as pessoas para a colaboração e só avançamos com um pedido quando não temos mais saída. Conforme eles, colaborar não é fácil, mas necessário. Eles não são muito de citarem fontes ao longo do livro, mas trouxeram a escritora Renée Hopkins, quando quiseram tratar de criatividade e inovação, apropriando dela, que “criatividade é um ato individual, que requer introspecção enquanto que inovação é um ato colaborativo”. O inventor é uma pessoa reclusa, submerso num ato criativo, mas, para que sua invenção tenha repercussão e se torne realidade, exige a colaboração de muitas pessoas. De passagem, eles atribuem muita importância à concentração, que leva à meditação, que pode empregar-se com êxito nas escolas. É o que fazia Ghandi, é o que faz Yuval Harari. Quase ao final de suas considerações, em Colaborar, eles descem mais suavemente, quase poeticamente, tratando da felicidade e atribuindo a Mihaly Csíkszentmihálvi, o psicólogo do fluxo, a afirmação de que “se uma pessoa quer ser feliz deve encontrar o equilíbrio entre a ansiedade e o aborrecimento”. Com isso afirmam que os jovens devem ser treinados para encontrarem seu nível de capacidade para o que seja “até onde podem chegar” e com isso criem objetivos de tirar partido das próprias capacidades. Instruir os jovens para a colaboração não é só uma questão de eficiência, mas de conservação social. E Isso nos leva a uma avaliação dos que estão agora estudando e que deverão reinventar um modelo político já que o atual “não funciona”, pois o conceito de democracia que temos está em crise. Por fim, falam do último elemento – Integrar – que eles associam à ideia de costurar, como sendo a forma de unir peças e alinhavar tudo adequadamente e, portanto, uma tarefa que requer saber “pensar com as mãos”. Em outras palavras, o autor sugere uma habilidade fundamental que a escola deverá desenvolver nos próximos anos, com certa humildade intelectual somada à habilidade de combinar (costurar) peças. Escrevendo sobre Inovar é Integrar, deixam claro que o surto de conhecimentos dos próximos anos será o resultado da combinação de formas criativas com as mais variadas disciplinas. Porém, tem mais: é preciso impregnar as ideias de ágil e ligeiro, que não se confundem, porque ligeiro se refere a um conjunto de princípios que permitem descartar as tarefas que não agregam valor ao trabalho, enquanto ágil indica as etapas sequenciais que carregam valor e flexibilidade para aderir ao produto final. Na conclusão do livro, eles são pragmáticos, ao que reputo uma enorme lição: para que serve(PQS)? Pergunta absoluta que os jovens sempre fazem. Considerando que é de vital importância proporcionar a eles um conhecimento que resulte útil o que se aprende é imperativo colocar em prática imediatamente. Mas os jovens têm que ser integradores, depender muito de suas competências, que sejam capazes de obter de outras pessoas o conhecimento de que precisam. Isso de pensar com as mãos me lembra de escutar o cheiro, apalpar o sonho, pois o conceito básico é o thinkering, quando a integração se relaciona com o trabalho manual, com a bricolagem. O velho e excelente mão na massa, ou, como uma vivência no chão da fábrica, pois é nesses momentos que surge a grande oportunidade que é o empreendimento. A capacidade de empreender. Este, quando vê sinais de problema busca integrar o conhecimento de muitas pessoas para resolver o seu e ir adiante. A verdade é que ser integrador ajuda a ser empreendedor, pois, se não se é aquele, nunca se é este. Simples: porque sozinho não se pode nada. E, segundo estudos, o elemento realmente significativo é a persistência. Por final, Cornella e Cubata destacam uma expressão de Ralph Waldo Emerson, pedagogo americano de renome, escritor, filósofo e poeta: “O segredo da educação está em respeitar o estudante”. Mais não disseram nem lhes foi perguntado. Precisava??

10/04/2020

Ricardo Grau

prezado, excelente artigo! Gostei muito da abordagem e especialmente da definição do ser humano: "“O que é ser humano” é a primeira questão que respondem: é ter curiosidade, espírito crítico, ser criativo, ter empatia social e capacidade de improvisar. E adiciona, que cada um de nós tem um talento, destacável pela natureza e nisso reside a função principal da educação: descobrir esses talentos e levá-los à máxima potência. E tambem de "inovar é integrar" Vou guardar. Abraço, Grau

Rumo a Paris, com o futuro da educação superior na bagagem

Janguiê Diniz

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Júlio Cesar de Castro Ferreira

Psicoterapeuta Clínico, especializado em Neuropsicologia, TCC e Psicanálise. Analista Sênior de Treinamento e Desenvolvimento, especializado em Inteligência Emocional e Soft Skills.

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Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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