O e-mail do presidente Obama ao presidente Temer

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues Presidente do Conselho de Administração da ABMES ***
“Não há problema das pessoas usarem humor, esperteza, dramaticidade e outros truques do entretenimento para passar a informação que julgam importante.” Michael Schudson, professor de Comunicação da Universidade de Columbia
  “Senhor Presidente, Pelo setor diplomático estamos acompanhando o desenrolar da crise brasileira, que teve como consequência o afastamento temporário da presidente da República e a instalação de um novo governo que ficou sob sua responsabilidade. Desejar entender de longe o ocorrido é difícil para se ter uma avaliação sensata e objetiva dos acontecimentos. A meu ver, tudo leva a crer que se trata das dores de parto de uma jovem democracia em crescimento, onde há um imenso desafio a se resolver, maior do que o de trocar toda a tripulação de uma aeronave em pleno voo. (Na minha língua, “you have a lemon on your hands”) O Brasil (como qualquer país) tem problemas de toda ordem a serem enfrentados: na economia, na política, na sua estrutura social e, principalmente, no sistema de governança de todas as esferas de poder constituído. E eles mostram enormes lacunas comportamentais do executivo, do legislativo e do judiciário. O que está claro é que o presente modelo de governança do estado brasileiro exauriu-se porque está viciado por uma cultura onde os dirigentes não estão preocupados com a sustentabilidade do país e com a melhor qualidade de vida de suas populações, mas sim com seu benefício próprio e permanência no poder de forma ilimitada. Eles se veem donos do poder e não servidores da sociedade. Inegavelmente, o primeiro obstáculo de seu governo é começar a controlar as despesas de casa, porque as contas federais estão uma lástima, devastadas que foram por uma sequência de erros e desatinos. É uma crise sem precedentes que, vista sob a ótica da oportunidade, se for resolvida, dar-lhe-á ensejo de consagrá-lo na história como o governante que solucionou os problemas de um país em destruição. Como não vai dar tempo de aconselhá-lo pessoalmente, faço-o por e-mail, indicando a primeira regra básica das decisões: os grandes problemas só são resolvidos por gente competente, entusiasmada, focada e com espírito público, que, segundo li, não é a característica do quadro de colaboradores escolhidos para seus ministérios. E um dos problemas é que se o presidente não for “rápido no gatilho”, não sobreviverá. Sei que é uma tarefa complicada armar uma equipe às pressas e atender a todas as demandas políticas, mas, com raras exceções, os nomes escolhidos são velhos fregueses da estratégia cartorial e de arranjos vantajosos para si e para os seus e só por isto já frustraram àqueles que vislumbram uma vida mais digna para os brasileiros. Presidente, logo que fui eleito para o Governo dos Estados Unidos, um dos primeiros discursos que proferi foi no Colégio Wakefield, em Arlington, Virginia, com transmissão pela TV e pelo rádio para todas as escolas americanas de ensino fundamental e médio e para todo o país. O meu propósito foi destacar a educação como única forma de preparar gente competente para desenvolver o país. Dei meu exemplo de estudante pobre, filho de mãe solteira que não tinha recursos nem condições de me colocar em escola paga e que me acordava às quatro e meia da manhã para me dar aulas extras. Falei das responsabilidades dos professores, que precisam ser os principais motivadores para o sucesso educacional dos seus alunos, e das mensagens de otimismo e de autoconfiança que precisam impregnar nas crianças para que elas possam vencer seus desafios e para que saibam que errar faz parte da aprendizagem. Destaquei também o papel dos pais e das famílias para o sucesso educacional e também da sociedade como um todo, colaborando nas iniciativas que visam o desenvolvimento educacional. E é lógico que considerei toda a responsabilidade do meu governo de valorizar o papel dos diretores e professores para que os estudantes de todos os níveis alcancem seus objetivos de se tornarem ótimos cidadãos. Com sinceridade e com toda a franqueza, uma coisa que me intrigou outro dia mostrada pelos meus assistentes foi um vídeo da Rede Globo do Brasil (Estudantes de Bom Jardim sofrem com situação precária de escolas) revelando o calamitoso estado das escolas do Maranhão, sem as mínimas condições de infraestrutura, na cidade de Bom Jardim, a 280 quilômetros de São Luís, capital do estado. O teto é de palha, as paredes são de barro e as duas únicas salas são divididas apenas por uma lona. Ali estão alunos da 6ª à 9ª séries do ensino fundamental, estudando juntos. O piso é de terra batida. Também não há energia elétrica, refeitório ou cozinha para preparar e servir o lanche das crianças. A escola não tem sequer banheiro de verdade: o que tem é um cercado de palha. O pior de tudo isto, senhor presidente, é que me disseram que o Maranhão é um estado dominado por um ex-presidente da República e sua família por mais de quarenta anos. Digo mais para o amigo: se as condições e o tempo não permitirem que se faça um estupendo plano de educação para seu país, reforme pelo menos as escolas em situação iguais a essa, que será lembrado eternamente como o governante mais atinado com a educação. Isso me faz refletir e aconselhar que o alicerce do desenvolvimento sócio-cultural-político-econômico necessário para transformar o Brasil num país com solidez em seu desenvolvimento global sustentável contínuo é a Educação. É esse o grande desafio que você tem pela frente, uma vez que não há um sistema educacional em consonância com a realidade brasileira. Educação como processo de mudanças através do conhecimento, da criatividade e da inovação, acessível a todo e qualquer cidadão, de qualquer faixa etária. Pensar em Educação desde o Ensino Básico, acolhendo crianças de dois a cinco anos, dará os subsídios necessários para a qualidade tão esperada nos demais níveis de ensino. Nessa fase, entre o lúdico e o aprender a fazer, as descobertas são incríveis e as respostas rápidas, alimentando a curiosidade pelo novo. A escola tem que ter o olhar para o tempo real e o imaginário infantil, pois é nesse universo que vivem as crianças. Uma das maiores responsabilidades de um líder é a de motivar e proporcionar as melhores condições para que todos aqueles a quem lidera possam evoluir para melhorarem e vencerem na vida. O seu maior desafio será contribuir significativamente para melhorar as condições de vida dos brasileiros, permitindo que possam vencer essa árdua e dura luta. Sua maior responsabilidade é envidar os máximos esforços para proporcionar o melhor nível de Educação para que o país possa ter progresso. Eu mesmo, e certamente você também, para chegarmos até aqui, estudamos muito e tenho convicção de que o conhecimento adquirido, da escola primária até a universidade, foi a principal razão para estarmos hoje ocupando o maior posto dos nossos países. E é essa competência educacional que você precisará propiciar aos seus estudantes. As famílias brasileiras devem ter certeza de que o maior legado que podem deixar é a Educação. E, por isso, é preciso que, em cada lar desse país, mães e pais tenham como principal compromisso a responsabilidade de prestar toda e qualquer assistência para que seus filhos e seus descendentes recebam a melhor Educação que for possível. Essa luta você tem que liderar porque vivemos em pleno século 21, onde o conhecimento é o recurso mais importante para o desenvolvimento econômico, humano e social. Quem sabe um dia o Brasil possa se tornar o país dos estudantes, formado por cidadãos com alta capacidade de análise e pensamento crítico a partir do estudo aprofundado da língua portuguesa e da leitura e interpretação de textos. Alinhados à habilidade de resolver problemas aprendidos em ciências e em matemática para curar doenças como o câncer e a Aids e para desenvolver novas tecnologias de energia e de proteção ao meio ambiente. O Brasil precisa das ideias e do pensamento crítico gerados a partir do estudo da história e estudos sociais, para ajudar a combater a pobreza, a miséria, o crime e a discriminação, possibilitando a criar um país mais justo e mais livre. Vai precisar da criatividade e da inventividade dos brasileiros para desenvolver e abrir novas empresas que gerem empregos e impulsionem sua economia de forma consistente e sustentável. Com boa Educação, o Brasil dará goleada em todos os países do mundo na geração de descobertas científicas, curas de doenças, patentes e novas tecnologias que revolucionem para o bem a vida de milhões ou bilhões de pessoas no planeta, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais colaborativa, inclusiva e justa. O Brasil precisa deixar de ser um país de futuro, para ser um país protagonista em construir o mundo do futuro, melhor, mais equilibrado, sem fome, miséria e pobreza, sendo assim um país da Educação. E meu desejo é, sem dúvida, que o presidente seja o timoneiro seguro para isto acontecer.” Usei a ficção para mostrar que só a educação salva o Brasil. Boa sorte e que Deus o ilumine a abraçar esta causa e que Deus abençoe o Brasil.

17/05/2016

Harry Fockink

Gostei da ideia :-)

20/05/2016

Mirian Nere Martins

Como de outras vezes, adorei o artigo, criativo e muito provocativo, mas se me permite tecer algumas considerações, acredito que o mesmo poderia ser mais efetivo. As críticas à educação são pertinentes, mas o que efetivamente o presidente Obama e sua equipe fizeram para melhorar a educação dos EUA? E como esse exemplo pode, efetivamente, melhorar a educação brasileira? E mais do que isso, como o exemplo norte-americano pode influenciar efetivamente melhoras na economia, na política, na estrutura social e, principalmente, no sistema de governança de todas as esferas de poder constituído do Brasil? O país precisa de muitos mais brasileiros que pudessem se espelhar em exemplos como os que o presidente Obama apresenta no artigo, e em exemplos de outros líderes governantes de países como a Coréia do Norte, Finlândia, Japão, Xangai (China), Escócia e outros mais. Mas diante da cruel realidade das escolas da cidade de Bom Jardim, e das condições da população do estado do Maranhão, fica impossível imaginar-se o que pode ser feito e implementado de forma relevante para o bem da sociedade brasileira, que parece viver da esmola dos políticos corruptos que predominam em todas as instâncias do executivo e legislativo. A conclusão, ou talvez um sonho, é que seu artigo pudesse ir muito mais além, e, efetivamente, melhorar o Brasil para os 200 milhões de brasileiros, pois isso é o mínimo que nós merecemos. Mas, mesmo assim, obrigado por suas nobres intenções, Atenciosamente Profa. Mirian Nere Martins

20/05/2016

Sofia Moraes

Prezado prof. Gabriel, Temos muito o que aprender com o presidente Obama. Destaco na educação o CommonCare, o núcleo comum para matemática, inglês e artes que tem impactado de forma muito positiva o desenvolvimento dos sistemas de avaliação e desempenho dos estudantes. http://www.corestandards.org/ O senhor não acha que projetos como esse seriam vitais para a educação no Brasil? No entanto, para nossa educação tudo parece ser sempre muito difícil. A nossa Base Nacional Comum Curricular é cheia de inconsistências e polêmicas, além de não apresentar de forma prática, a tão esperada efetividade na melhoria da aprendizagem e desempenho dos estudantes da educação básica.

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Janguiê Diniz

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Júlio Cesar de Castro Ferreira

Psicoterapeuta Clínico, especializado em Neuropsicologia, TCC e Psicanálise. Analista Sênior de Treinamento e Desenvolvimento, especializado em Inteligência Emocional e Soft Skills.

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Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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