Domínio das competências — moeda global do século 21

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

Gabriel Mario Rodrigues 1Gabriel Mario Rodrigues Presidente da ABMES e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular
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As competências transformam vidas e impulsionam economias. Sem o investimento adequado em competências, as pessoas definham à margem da sociedade, o progresso tecnológico não se traduz em crescimento econômico e os países não podem competir numa sociedade global cada vez mais baseada no conhecimento. (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE)
Uma ex-aluna se casou e foi morar com o marido francês nos arredores de Paris, assim que terminou o curso de jornalismo no início dos anos 2000. Por informações de seus colegas, soubemos que sua adaptação à realidade local estava sendo muito difícil. Completamente desanimada por não conseguir se inserir como jornalista no mercado de trabalho, enfrentou inúmeras dificuldades. O tempo passou e há cerca de três anos nos vimos em encontro casual. Bem-humorada, relatou sua história de sucesso, explicando que o governo francês, preocupado com a situação dos imigrantes e com o desemprego, criou um programa para detectar as competências e as habilidades das pessoas para inseri-las no mercado. Nesse programa, ela descobriu, a contragosto, que a única oportunidade que teria era a de trabalhar como esteticista. Fez um curso e foi contratada por uma empresa de cosméticos. Ocorre que seu superior identificou nela outras competências: falava fluentemente português, francês e espanhol; não se saía mal no inglês e tinha uma facilidade enorme para comunicar-se, interagir e liderar com pessoas. De esteticista para representante comercial da empresa, sobretudo em países latino-americanos, foi um pulo. Ela está feliz, a empresa vai bem, obrigada, em grande medida, graças a ela. A transformação pela qual está passando o mundo do trabalho, em que as empresas empregadoras não estão satisfeitas com os profissionais saídos das universidades, é uma das preocupações da OCDE, fórum mundial onde os governos trabalham em conjunto para enfrentar os desafios econômicos, sociais e ambientais da globalização. As mudanças requeridas em matéria de emprego implicam aumento na demanda por competências cognitivas não rotineiras e socioemocionais. Implicam ainda diminuição na demanda por competências cognitivas rotineiras e artesanais e por tarefas físicas repetitivas. Segundo pesquisa da OCDE – “Melhores competências, melhores empregos, melhores condições de vida: uma abordagem estratégica das políticas de competências”[1], as competências exigidas para o trabalho se transformaram totalmente na moeda global do século XXI. O estudo enfatiza três questões sobre as quais devemos refletir:
  • Primeira: Como os países podem melhorar a quantidade e a qualidade das competências de sua mão de obra?
  • Segunda: Como os países podem incentivar as pessoas a oferecer suas competências no mercado de trabalho?
  • Terceira: Como os países podem fazer o melhor uso de seu estoque de talentos de maneira mais eficaz?
Primeira resposta: incentivando e capacitando as pessoas a aprender ao longo de suas vidas; compilando e utilizando a informação sobre a demanda de competências; estruturando sistemas de educação e treinamento eficientes e eficazes; investindo na educação continuada; aumentando a qualidade da educação; e promovendo a equidade nas oportunidades educacionais. Segunda resposta: facilitando a entrada de imigrantes qualificados (caso europeu); estimulando os bons estudantes internacionais a permanecer no país depois de formados, como também sensibilizando as pessoas inativas a participar do mercado de trabalho; oferecendo incentivos financeiros para que o trabalho compense; combinando as políticas de ativação com oportunidades de reciclagem ou atualização. Os países podem, ainda, reter as pessoas qualificadas, desestimular a aposentadoria precoce e deter a fuga de cérebros. Finalmente, a terceira resposta sugere duas abordagens: (1) Garantir que as pessoas apliquem suas competências com eficácia, ajudando os empregadores a usar melhor as qualidades dos seus colaboradores; ampliando o uso das competências por meio de melhor gestão e inovação; combatendo o desemprego e ajudando os jovens a se posicionar no mercado de trabalho; (2) Aumentar a demanda por competências de alto nível, apoiando a criação de empregos de nível maior de competências e de alto valor agregado; ajudando as economias locais a aumentar a produção na cadeia de valor; e estimulando o empreendedorismo. Para implantar essas políticas de competências, os países devem adotar um enfoque integral incluindo todos os atores nos âmbitos nacional e local, além de alterar o foco de uma noção quantitativa do capital humano, medido em anos de educação formal, pelas competências que as pessoas realmente adquirem, melhoram e, também, perdem durante sua vida. Espera-se, cada vez mais, que a educação desenvolva novas formas de pensar que incluam criatividade, pensamento crítico, solução de problemas e tomadas de decisão; novas alternativas de comunicação e colaboração; novas ferramentas de trabalho tais como a capacidade de reconhecer e aproveitar o potencial das novas tecnologias, além da capacidade de viver em um mundo complexo com cidadãos ativos, responsáveis e solidários. A educação por competências — conjunto de conhecimentos (saberes), habilidades (saber fazer) e atitudes (saber ser), que se manifesta por comportamentos observáveis e traz implícitos os conhecimentos tecnológicos e as atitudes e valores inerentes à realização do trabalho — é certamente o caminho para preparar o jovem para este mundo novo. A competência não significa uso estático de regras aprendidas. Ela se traduz na capacidade de lançar mão dos mais variados saberes e recursos, de forma criativa e inovadora, no momento e no modo necessário. “Uma competência orquestra um conjunto de esquemas. Envolve diversos esquemas de percepção, pensamento, avaliação e ação”, explica o sociólogo Philippe Perrenoud. Construir uma competência significa aprender a identificar e a encontrar os conhecimentos pertinentes para que os alunos descubram os próprios caminhos. Nesse cenário, o papel do professor é fundamental, pois dele serão exigidas competências básicas tais como domínio do aprender a aprender; comunicação e colaboração no trabalho solidário e grupal; raciocínio criativo na resolução de problemas; conhecimento tecnológico; conhecimentos gerais e conhecimentos específicos; desenvolvimento da liderança para conduzir o processo educativo de modo que envolva (encante) positivamente alunos e família; e autogerenciamento da carreira, ou seja, assumir o compromisso de qualificar-se. No Brasil temos muito que caminhar. Se compararmos duas universidades com anuidades diferentes — 60 mil e 8 mil reais — verificaremos que em nenhuma delas há articulação entre competências cognitivas (resolução de problemas e memorização de formulas) e competências socioemocionais (criatividade e liderança). As nossas universidades precisam avançar e compreender que as competências caminham juntas e devem se relacionar, mas a importância do domínio destas últimas colocam como valor primordial as competências de alto nível, as chamadas “Competências do século 21”, os “Quatro Cs”: Criatividade, Crítica (pensamento crítico), Comunicação, Colaboração que são essenciais para absorver conhecimentos e maximizar o desempenho profissional. Embora se possa argumentar que a OCDE tenha uma visão europeia da realidade empresarial (entre os países membros apenas dois são da América Latina, Chile e México), concordamos com suas premissas de que as competências podem transformar vidas, impulsionar economias, colaborar para o processo de inclusão de pessoas na sociedade, investir no progresso tecnológico e permitir a competição entre países numa sociedade global.   [1] OCDE (2014). Melhores competências, melhores empregos, melhores condições de vida: uma abordagem estratégica das políticas de competências. Publicação da OCDE disponível em http://dx.doi.org/10.1787/9788563489197-pt    

Rumo a Paris, com o futuro da educação superior na bagagem

Janguiê Diniz

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Júlio Cesar de Castro Ferreira

Psicoterapeuta Clínico, especializado em Neuropsicologia, TCC e Psicanálise. Analista Sênior de Treinamento e Desenvolvimento, especializado em Inteligência Emocional e Soft Skills.

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Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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