Criatividade — a principal habilidade para se vencer os desafios do século XXI

Gabriel Mario Rodrigues

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)

Gabriel Mario Rodrigues 1Gabriel Mario Rodrigues Presidente da ABMES e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular
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A criatividade é o recurso mais fecundo que o homem, desde sempre procurou dominar para derrotar seus inimigos atávicos: a fome, o cansaço, a ignorância, o medo, a feiura, a solidão, a dor, e a morte. Em cada esquina do planeta, em cada fase de sua evolução, a criatividade humana consegue atribuir uma forma ao caos e um significado as coisas.(Domenico De Mais)[1]
Para ilustrar o processo de ensino-aprendizagem, o psicólogo Lauro de Oliveira Lima contava a história de seu cachorro. Ele sempre dizia a seus colegas e alunos que ensinara o animal a falar. Curiosos iam visitá-lo para ver o cão fenômeno. Ele pedia várias vezes ao cachorro que lhes dissesse boa noite. Mas o cachorro permanecia mudo. Lauro, então, saía-se com esta: “Ensinar, eu ensinei; mas foi ele que não aprendeu!”. A anedota alerta para a necessidade de se passar de uma docência baseada no ensino para a docência baseada na aprendizagem. Vivemos um tempo de profundas transformações que impõem novos desafios que exigem respostas inéditas e originais. O processo de ensino/aprendizagem tem sido prejudicado pela cultura do professor em transmitir conhecimento, esquecendo-se de que a aprendizagem não se dá exclusivamente pela razão, mas pelo diálogo com a natureza criativa do indivíduo. Nessa ótica da transmissão, tendo o professor como autoridade intelectual, o que se tem é a reprodução de informações por “alunos-ouvintes”, na maioria das vezes apáticos, num processo de transmissão-reprodução-transmissão, que enfatiza as operações de memorização e um conhecimento enciclopédico. Para quebrar esse círculo vicioso não basta ensinar o que é conhecido, é necessário capacitar o aluno para questionar, refletir, transformar e criar. Assim, o papel da criatividade no ensino é imperativo: criar é essencial na sociedade do conhecimento, é fator-chave para lidar com as mudanças rápidas e complexas que caracterizam o mundo contemporâneo. A criatividade no ensino superior, no entanto, ainda é pouco estudada no Brasil, embora seja fundamental para a inovação e consequente sucesso das organizações. Ela tem sido considerada como elemento crítico para a sobrevivência da grande maioria de empresas, tendo em vista os desafios gerados pela globalização, a crescente competição e o ritmo acelerado de mudanças. As psicólogas Eunice Maria Lima Soriano de Alencar e Denise de Souza Fleith – autoras do interessante artigo “Criatividade na educação superior: fatores inibidores” (ver imagem) – entrevistaram 338 professores brasileiros de instituições públicas e particulares de ensino superior para investigar elementos percebidos por eles como inibidores à promoção de condições adequadas ao desenvolvimento e à expressão da criatividade de seus alunos. Alunos com dificuldades de aprendizagem em sala de aula, desinteresse do aluno pelo conteúdo ministrado, poucas oportunidades para discutir e trocar ideias com colegas de trabalho sobre estratégias instrucionais e elevado número de alunos em sala de aula foram os itens com maior percentual de respostas. Aliam-se a tudo isso o receio de professores de assumirem riscos em função de uma cultura que não tem tolerância ao fracasso, a falta de recursos, especialmente de tempo, e oportunidades limitadas a uma avaliação formativa. As autoras admitem que a questão é complexa e que as suas várias facetas e multiplicidade de causas devem ser examinadas, pois englobam variáveis relativas ao aluno (entre as quatro barreiras indicadas por maior número de docentes, três diziam respeito ao aluno), ao docente, à cultura universitária e a outras de ordem sócio-histórico-cultural, que dialogam entre si. A educação tem como fim integrar o homem, torná-lo sensível para enfrentar, e responder criativamente, aos desafios impostos por uma nova sociedade baseada no conhecimento, na qual, segundo Miguel Zabalza,[2] os docentes devem ter dupla competência – a competência instrucional, como conhecedores do âmbito científico ensinado, e a competência pedagógica, como pessoas comprometidas com a formação e a aprendizagem dos estudantes. Estudos revelam que a prática de uma educação criativa envolve uma efetiva e peculiar revolução no modo de conceber a realidade – que incorpora pensamento e sentimento, objetividade e subjetividade, individualidade e sociedade –, permitindo ao indivíduo agir, interagir e transformar a sociedade em que está inserido. É pelo desenvolvimento da criatividade por meio da educação que se pode preparar alunos que saibam se adaptar mais facilmente ao meio, que saibam se autoconhecer e lidar de maneira sempre nova com as contingências da vida e que assumam seu papel ativo e participativo no processo ensino/aprendizagem. Desse modo, os novos tempos exigem que se desloque a prioridade do ensino dos conteúdos para a aquisição e o desenvolvimento das potencialidades e de novas atitudes, que se passe de uma aprendizagem de recepção (na maioria das vezes passiva) para uma aprendizagem por descoberta, marcada pela atividade inovadora, em que se demonstre o seu valor para a vida cotidiana, favorecendo novas indagações, novos questionamentos. Afinal, um dos maiores desafios é saber lidar com a imprevisibilidade e para isso, os estudantes precisam assumir responsabilidades pela própria formação e se preparar para continuar seu processo de formação ao longo da vida. Centrar o processo docente no aluno, respeitar a individualidade, individualizar o processo de ensino/aprendizagem, dar liberdade, mas criando responsabilidade, proporcionar um clima colaborativo, usar os dispositivos tecnológicos, desenvolver competências socioemocionais, além, é claro, da transmissão da experiência cultural e científica, revelam comprometimento com um novo fazer pedagógico voltado para a reconstrução permanente de saberes com vistas à formação de profissionais competentes, criativos e habilitados para o mercado. Ao final de seu artigo, Eunice Maria Lima Soriano de Alencar e Denise de Souza Fleith ressaltam que, embora o papel do professor seja da maior relevância para estabelecer condições propícias ao desenvolvimento das habilidades criativas do estudante, é também de fundamental importância o fomento de uma cultura universitária que dê maior valor ao desenvolvimento e à expressão do potencial criativo do estudante. Para isso, é necessária uma mudança cultural na educação superior, que inclua como um de seus elementos ajudar os professores a entender e valorizar a própria criatividade e reconhecê-la como parte integrante de sua formação profissional, paralelamente à criação de um clima institucional que encoraje e valorize a reflexão e o desenvolvimento pessoal tanto de professores quanto de estudantes. Citando James Wisdom, as autoras elencam condições propícias ao florescimento da criatividade:
  1. a) ter tempo suficiente e espaço no currículo para permitir aos estudantes desenvolver sua criatividade;
  2. b) ter situações de trabalho suficientemente variadas e diversas para possibilitar a todos os estudantes serem criativos;
  3. c) permitir aos estudantes a liberdade para trabalhar de maneiras novas e interessantes;
  4. d) desafiar os estudantes com trabalhos reais, exigentes e excitantes;
  5. e) delinear avaliações que permitam respostas que não sejam estreitamente predeterminadas;
  6. f) cultivar um clima na instituição que encoraje a reflexão e o desenvolvimento pessoal de professores e estudantes;
  7. g) alimentar debate acadêmico contínuo no contexto da disciplina, e diálogo sobre a natureza da matéria e o papel da criatividade na mesma.
No infográfico “Big Data e ensino adaptativo são mudanças previstas na educação mundial até 2020”, no site da Universia Brasil, estão traçadas as perspectivas para a educação mundial, nas quais estão presentes a tecnologia, a colaboração, a criatividade, a inovação e o empreendedorismo. Refletir e debater no interior das instituições de ensino superior as questões abordadas neste artigo constituem atitudes essenciais para compreender as mudanças que ocorrerão no processo ensino-aprendizagem até a segunda década deste século.   [1] Lauro de Oliveira Lima (1921- 2013), educador brasileiro, conhecido pela sua atuação política na educação e pelo desenvolvimento do Método Psicogenético, estruturado a partir da Epistemologia Genética de Jean Piaget. [2] Zabalza, Miguel. O ensino universitário: seus cenários e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed, 2004.  

Rumo a Paris, com o futuro da educação superior na bagagem

Janguiê Diniz

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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Psicoterapeuta Clínico, especializado em Neuropsicologia, TCC e Psicanálise. Analista Sênior de Treinamento e Desenvolvimento, especializado em Inteligência Emocional e Soft Skills.

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Diretor-Secretário da Academia Brasileira de Educação e Professor Titular de Física aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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